terça-feira, 1 de novembro de 2011

Movimentos migratórios para o estuário do Tejo

A minha família é originária de S. Marcos da Serra, Algarve, meu pai era ferroviário e terá vindo para Alhos Vedros nos anos 40. Já em Alhos Vedros encontrei um outro ramo da família também de S. Marcos da Serra este ligado á indústria corticeira.
O comboio fazia o transporte de cortiça dos montados alentejanos e da serra algarvia para as fabricas de cortiça do Seixal, Barreiro, Alhos Vedros, Montijo e daqui por sua vez a cortiça era transportada em fragatas e varinos para os navios de carga ancorados no mar da palha com destino à exportação. À construção da linha férrea e á implantação da industria corticeira e outras industrias está associado um significativo movimento migratório interno, principalmente de gentes oriundas do Alentejo e Algarve.
Um segundo movimento migratório (o do povo caramelo) era constituído por agricultores oriundos da Beira Litoral das zonas de Cantanhede e Mira e que se fixaram na região da Alhos Vedros e arredores. Pensa-se que a designação de caramelo possa estar relacionada com caramulo (Serra do Caramulo).
Um terceiro movimento migratório e era formado por pescadores oriundos de Viera de Leiria os avieiros (gaibéus) que se fixaram lá para os lados de Vila Franca de Xira e Azambuja. Construíram aldeias palafticas, casas assentes em estacas junto ao rio algumas das quais ainda existem, bem como as suas embarcações, as bateiras.
Um quarto movimento migratório foi constituído por pescadores oriundos de Ovar e Murtosa, os ovarinos. Os Ovarinos trouxeram os varinos embarcações que permitem navegar em pouca água. Pensa-se que o topónimo Ovar (o var) deriva do facto de estas embarcações no rio Vouga, muitas vezes terem de navegar à vara.
Finalmente a margem sul do estuário do Tejo há muito que era habitada (desde o paleolítico), mas em meados do sec. XX os aglomerados populacionais de Alhos Vedros, Montijo, Seixal, Barreiro… sofreram forte influência da industrialização pelo que a sua cultura de ligação com as actividades do rio, actualmente ainda se mantém, mas de forma algo diluída. Algumas aldeias como Sarilhos Pequenos, Gaio, Rosário, não sofreram essa influência e conservam uma quase genuína ligação com o rio. Essa ligação está presente em coisas simples como uma boa caldeirada à fragateiro confeccionada por antigos arrais. A este propósito transcrevo parte das declarações de um dos mais carismáticos arrais de Sarilhos Pequenos, Cipriano Fernandes tal como consta no livro “Trabalhar no Tejo” do Ecomuseu do Seixal. – “ a gente fazíamos a comida na altura e eles [os ovarinos] faziam uma panela de sopa que dava para toda a semana (…) a gente não, cozinhávamos ao almoço e cozinhávamos ao jantar” E um dos segredos de uma boa caldeirada está na qualidade do peixe e na qualidade dos produtos hortícolas. Junto ás margens do estuário do Tejo e de outros estuários encontra-se o tipo de solo mais produtivo que existe. Aqui eram produzidos produtos hortícolas de qualidade que davam para abastecer os mercados em Lisboa. O próprio estuário devidamente despoluído seria um importante viveiro de peixe e marisco. A preservação da cultura ribeirinha exige sustentabilidade económica e ambiental. Se os troikistas estivessem interessados em salvar o país, teriam outro tipo de orientação política, teriam começado por implementar medidas de desenvolvimento sustentável para o estuário do Tejo. Como não estão interessados, aumentam os impostos, cortam nos salários…. Um dia a amêijoa acaba e vamos todos ter de migrar ou emigrar daqui para fora.

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